terça-feira, 25 de março de 2014

Anotações da aula do dia 23/03/2014 por Denis Camargo


Relato é da aula do dia 20/03/2014 da disciplina:



"Processos Criativos Pós - 2014"
disciplina Tópicos Especiais em Artes Cênicas III

A aula teve a exposição de slides sobre a produção literária de Homero e de alguns registros sobre a sua "existência".
Enfim, foi dito que "A Ilíada" possui 24 cantos que são desdobrados em + ou - 1600 versos/linhas e que estes possuem basicamente o mesmo ritmo.

Uma das questões colocadas foi: "Homero realmente existiu?" Sua obra está relacionada ao século VII a.C. por causa de alguns fatos históricos exibidos em sua obra.

A guerra de Tróia aconteceu no séc. XI ou XII a. C., contudo, Homero existiu 600 anos depois, ou seja, + ou - no séc. VI.

Sua edição aparece começou a partir do século VI a. C. porque Homero era um poeta oral, da oralidade. Uma das hipóteses é que suas histórias/relatos eram registradas pelos seus discípulos.

No séc. VI a. C. também se iniciam os festivais Dionisíacos, o Estado organiza em Atenas uma espécie de concurso para autores de tragédias gregas. Grande parte dessas tragédias gregas, e que chegaram até os tempos atuais, vêm desse ciclo Homérico.
Lembrem-se havia dois ciclos:
-Troiano .......... Homero poetizou o ciclo troiano.
-Tebano

Sobre a pouca existência de textos gregos na atualidade foi dito: "isso deve-se ao da maior parte desse material ter desaparecido, estragado, principalmente perdido, estarem soterrados... enfim, considera-se que algum texto produzido e apresentado nessa época ainda possa aparecer nos atuais, por causa das escavações de algumas cidades gregas que foram soterradas ou destruídas nas grandes guerras. A exemplo foi dito que o texto "Os Mirmidões" de Ésquilo que foi publicado recentemente.

Essa relação temporal do século XII a.C. -  guerra de Tróia, ao século VI a.C. - Atenas,  por causa das obras de Homero, considera-se a "invenção do ocidente".  Então, Atenas dominava os estudos clássicos nesse período, essa região impunha o marco da civilização e da democracia (...). Lembrar que a 1a. edição de "Ilíada" de Homero foi feita 200 anos depois da guerra de Tróia ter acontecido.

A guerra é uma ideia daquele que não é "eu" mas sim, daquele do que "eu quero ser" (Marcus Mota). Homero serve para construir essa identidade . Essa relação do ocidente/oriente.

Esse retorno a Homero existe por causa de uma herança colonial...

Sobre os deuses: os deuses são muitos estranhos em Homero, possuem raiva, inveja (...). Os heróis gregos não são tão heróis assim, não são modelos de comportamento, não são modelos de crença.
Por exemplo: conhecem o significado de Paidéia[1]? Paideia significa "Alimentador da casa".  Aquele que alimenta.
Segundo Platão:  "Homero é o maior poeta e é o primeiro dramaturgo da Grécia Antiga".
Homero, mesmo sendo um poeta da oralidade, construíam uma dramaturgia com as suas histórias. Sobre essa questão podem  ler o livro "Teoria da Composição Oral" de Milman Parry and Albert Lord  

Contudo, devemos lembrar que Homero realizava a sua composição dramatúrgica durante a sua performance oral.


Em Homero podemos ver: Cenas típicas, repetições, flutuações, composição oral tradicional, intervenção do material contado, etc.

Este formato é destacado nas "Teorias do Ator Rapsodo"[2].  Para entender melhor, eu, Denis Camargo, coloco o endereço eletrônico do site da ABRACE  - Associação Brasileira de Artes Cênicas - para leitura de um artigo que explica melhor o conceito.

Entrando na Ilíada, nesse ciclo "Troiano", Marcus Mota fez a pergunta: "Por que a recusa da ação é dramática? é um esforço para não agir, não-ação."

Do canto II ao canto VII teremos 6 dias de lutas pesadas, guerra, trégua....

Se pensar que Homero é neutro nessa guerra de Tróia é uma falácia, até porque é ele quem cria essa história, narra, performa ela para a sua audiência/espectador.

Quando chegar na parte do escudo de Aquiles, irei expor mais sobre o significado dele.

Ler o livro "Black Athena: The Afroasiatic Roots of Classical Civilization  "[3] de Martin Bernal.
Lembrem-se que "Ilíada" de Homero não é um livro sobre documentação histórica e nem fantasia é uma mediação sobre a existência de Tróia.

Existe um filme "La Caduta di Troia[4]" de Giovanni Pastrone, 1991 no youtube.

O século XX é anti-mímesis: é o período onde os artistas foram buscar suas referências na negação da tradição e na imaginação (...) hoje o artista faz uma mediação entre as duas coisas, logo, a mímesis é apropriação transformadora.

Homero usa movimentos pré-existentes, mas ele estiliza. Assim como Homero teve que se familiarizar as diversas narrativas de Tróia, vocês, alunos dessa disciplina, terão que fazer o mesmo no seus projetos durante o semestre.

Sobre a leitura de "Ilíada" de Homero: existe um obstáculo na leitura que está relacionada à técnica dos epítetos.  A técnica de repetição está ligada ao performer e à sua recepção. Nessa técnica o autor produz um choque entre a informação nova com a velha (já mencionada). Esse texto não é linear em relação ao nosso conceito de tempo, de narrativa. Quando você lê um livro,  lembre-se que é ele, o livro, que te lê. Ou seja, você é lido por ele. Você pode pular  páginas e páginas, mas elas continuam lá, esperando para serem lidas.

O momento é produção da presença, da atualidade.

Numa dramaturgia tradicional existem falam e rubricas. Por exemplo, um romance é cheio de rubrica, narração do autor. Em Homero, existem muitas rubricas do autor sobre as personagens, as ações, o tempo, etc.


Numa análise tradicional da narrativa temos que ver: espaços, agentes, ações, etc.
Em Homero, temos: narrador/performer em interação com sua audiência.


A audiovisualidade de Homero é escutar e ver, ou seja, a sua audiência ouvia as suas histórias (som) e via a sua gestualidade (imagem). Escuta e visão são mecanismos interligados.
As metáforas ligadas à visão são epistemológicas, são sinônimos de conhecimento, vem de Parmênides.

Lembrar que em Homero havia uma imagem visual e uma imagem sonora: fenômeno da natureza, Zeus se torna presente pela presença do raio e do estrondo, o bater das lanças no corpo dos soldados, o barulho da espada atravessando o corpo, som de mar, de epifania...

Mudança de perspectiva sonora e visual...

Existe o caráter pivotal da cena: as ideias vão se transformar em imagens e sons, não se separa som e imagem. Alguém está contando uma história para alguém que está escutando e vendo o narrador. Tudo é muito para se ver e ouvir em Homero.

Já para o leitor de "Ilíada" de Homero é diferente:
1º - existe uma leitura de "reconhecimento": é aqui que gera estranhamento - Sobre isso indico o livro: "Lector in fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos" de Umberto Eco.
2º - deve-se fazer uma leitura de pesquisa que podem gerar: fontes, referências, enciclopédia, levantamento de temas de interesse, vai gerar dados, anotar dúvidas, etc.
3º Modo de aplicação: como vou aplicar esse material apreendido? Em qual formato de mídia? (rap, embolada, verso repetitivo, dança, teatro-dança, etc.). Essa aplicação acontece quando você começa a fazer "homologias". O caminho da homologia não é igual ao da "analogia". Na homologia existe uma entre A e B, mas que chega em C. Lembre-se que "metáfora é transpor".

Por exemplo: agora estamos na linha do tempo, do reconhecimento. A leitura não é um ato homogêneo, se o leitor quiser ele pode antecipar e fazer dois processos ao mesmo tempo: reconhecimento e aplicação.
Essa história possui os eixos: Aquiles/Agamêmnon                                Pátroclo 
                  Heitor.

Há várias guerras dentro da guerra, existem as mulheres, existe o heroísmo das mulheres (em 7 contra Tebas explicita melhor essa relação de poder).
Outra coisa importante: a questão de gênero é fundamental na obra. Existe a penetração das espadas (era um ato de penetração, fálico), esse erotismo era tão forte que chegava a ruborizar os padres da Idade Média.

O nível do reconhecimento atomiza o leitor, pode fazê-lo se perder no decorrer da leitura.

Existe uma discussão na obra que se refere a hierarquia social.  Há também uma motivação humana dos atos e motivação divina dos atos.  Alerta: O prof. Marcus Mota falou nesse momento que não poderemos escrever a palavra "humano" no nosso trabalho final.

Nessa época não existia uma definição do "humano"/homem, dos deuses ou do animais/natureza. Todos se comportavam de todas as formas. Em Homem, encontra-se o primitivo. Contudo, todos têm medo da morte, inclusive os deuses.

- Existe uma questão sobre a morte: as pessoas vão para a guerra e morrem rapidamente. O guerreiro era um atleta da morte.

Ler: " O homem diante da morte, 2 volumes (1977) " de Philippe Aries

Na Ilíada existem, pelo menos, dois grandes funerais: Pátroclo e Heitor.

"O mundo como corpo vivo de deus" Eudoro de Souza.

Existe também a comicidade como silenciado, ela está sempre pairando ali como a morte, tem o risco.  Por que silenciamos a comicidade?  O controle do humor é o controle do corpo, o controle do riso.
Schopenhauer já escreveu "no início eu sinto, depois eu penso e, no final, eu rio".

"Se a morte sempre ronda a vida, encontrar a morte é possível?"
Que morte é essa? Essa morte é imaginada porque só se pode falar dela se estiver vivo.

Repetição: o humor em Homero é ilusivo.



[1] História[  - Fonte Wikipedia
Inicialmente, a palavra paideia (de paidos - criança) significava simplesmente "criação de meninos". Mas, como veremos, este significado inicial da palavra está muito longe do elevado sentido que mais tarde adquiriu. A ideia grega de Paideia estava ligada a um ideal de formação educacional, que procurava desenvolver o homem em todas as suas potencialidades, de tal maneira que pudesse ser um melhor cidadão.
O termo também significa a própria cultura construída a partir da educação. Era o ideal que os gregos cultivavam do mundo, para si e para sua juventude. Uma vez que o governo próprio era muito valorizado pelos gregos, a Paideia combinava ethos (hábitos) que o fizessem ser digno e bom tanto como governado quanto como governante. O objetivo não era ensinar ofícios, mas sim treinar a liberdade e nobreza. Paideia também pode ser encarada como o legado deixado de uma geração para outra na sociedade.
Um pedagogo - um escravo, na época - conduzia o jovem, com sua lanterna iluminadora, até os centros ou assembleias, onde ocorriam as discussões que envolviam pensamentos críticos, criativos, resgates de cultura, valorização da experiência dos anciãos etc.
Supõe-se que, no processo sócio-histórico, esse mesmo pedagogo libertou-se, talvez de tanto dialogar nos acompanhamentos do jovem até as assembleias, tornando-se um personagem da paideia, e seu consuma(dor).
Mas, se até então o objectivo fundamental da educação era a formação aristocrática do homem individual como Kalos agathos ("Belo e Bom"), a partir do século V a.C., exige-se algo mais da educação. Para além de formar o homem, a educação deve ainda formar o cidadão. A antiga educação, baseada na ginástica, na música e na gramática deixa de ser suficiente.
É então que o ideal educativo grego aparece como paideia, formação geral que tem por tarefa construir o homem como homem e como cidadão. Platão define paideia da seguinte forma "(...) a essência de toda a verdadeira educação ou paideia é a que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento" (cit. in Jaeger, 1995: 147)
Do significado original da palavra paideia como criação de meninos, o conceito alarga-se para, no século IV a.C., adquirir a forma cristalizada e definitiva com que foi consagrado como ideal educativo da Grécia clássica.
Como diz Jaeger (1995), os gregos deram o nome de paideia a "todas as formas e criações espirituais e ao tesouro completo da sua tradição, tal como nós o designamos por Bildung ou pela palavra latina, cultura." Daí que, para traduzir o termo paideia "não se possa evitar o emprego de expressões modernas como civilização, tradição, literatura, ou educação; nenhuma delas coincidindo, porém, com o que os gregos entendiam por paideia. Cada um daqueles termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito global. Para abranger o campo total do conceito grego, teríamos de empregá-los todos de uma só vez." (Jaeger, 1995: 1).
Na sua abrangência, o conceito de paideia não designa unicamente a técnica própria para, desde cedo, preparar a criança para a vida adulta. A ampliação do conceito fez com que ele passasse também a designar o resultado do processo educativo que se prolonga por toda vida, muito para além dos anos escolares.
A paideia, vem por isso a significar "cultura entendida no sentido perfectivo que a palavra tem hoje entre nós: o estado de um espírito plenamente desenvolvido, tendo desabrochado todas as suas virtualidades, o do homem tornado verdadeiramente homem" (Marrou, 1966: 158).
[2]    Existe um artigo no porta da abrace intitulado de TEATRO GESTUAL NARRATIVO de
Nara Keiserman da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO Processos formativos do ator, teatro narrativo, gestualidade:
http://www.portalabrace.org/vcongresso/textos/processos/Nara%20Keiserman%20-%20Teatro%20gestual%20narrativo.pdf
[3] Black Athena: The Afroasiatic Roots of Classical Civilization is a controversial three-volume scholarly work by Martin Bernal. He discusses ancient Greece in a new light. Bernal's thesis discusses the perception of ancient Greece in relation to Greece's African and Asiatic neighbors, especially the ancient Egyptians and Phoenicians who, he believes, colonized ancient Greece.
Bernal proposes that a change in the Western perception of Greece took place from the 18th century onward and that this change fostered a subsequent denial by Western academia of any significant African and Phoenician influence on ancient Greek civilization.
Although the influence of Egyptian and Near Eastern civilizations on ancient Greece is not controversial in either ancient or modern Greek historiography, the Afrocentric claims contained in Black Athena have been described as pseudohistory by Ronald H. Fritze.[1]
[4] https://www.youtube.com/watch?v=WWOcDs5cvrM

Um comentário:

  1. Boas anotações, Denis. Espero que ajudem você e os colegas. abs.
    O humor é elusivo.

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