Relato
é da aula do dia 20/03/2014 da disciplina:
"Processos
Criativos Pós - 2014"
disciplina Tópicos
Especiais em Artes Cênicas III
A
aula teve a exposição de slides sobre a produção literária de Homero e de
alguns registros sobre a sua "existência".
Enfim,
foi dito que "A Ilíada" possui 24 cantos que são desdobrados em + ou
- 1600 versos/linhas e que estes possuem basicamente o mesmo ritmo.
Uma
das questões colocadas foi: "Homero realmente existiu?" Sua obra está
relacionada ao século VII a.C. por causa de alguns fatos históricos exibidos em
sua obra.
A
guerra de Tróia aconteceu no séc. XI ou XII a. C., contudo, Homero existiu 600
anos depois, ou seja, + ou - no séc. VI.
Sua
edição aparece começou a partir do século VI a. C. porque Homero era um poeta
oral, da oralidade. Uma das hipóteses é que suas histórias/relatos eram
registradas pelos seus discípulos.
No
séc. VI a. C. também se iniciam os festivais Dionisíacos, o Estado organiza em
Atenas uma espécie de concurso para autores de tragédias gregas. Grande parte
dessas tragédias gregas, e que chegaram até os tempos atuais, vêm desse ciclo
Homérico.
Lembrem-se
havia dois ciclos:
-Troiano
.......... Homero poetizou o ciclo troiano.
-Tebano
Sobre
a pouca existência de textos gregos na atualidade foi dito: "isso deve-se
ao da maior parte desse material ter desaparecido, estragado, principalmente
perdido, estarem soterrados... enfim, considera-se que algum texto produzido e
apresentado nessa época ainda possa aparecer nos atuais, por causa das escavações
de algumas cidades gregas que foram soterradas ou destruídas nas grandes
guerras. A exemplo foi dito que o texto "Os Mirmidões" de Ésquilo que
foi publicado recentemente.
Essa
relação temporal do século XII a.C. -
guerra de Tróia, ao século VI a.C. - Atenas, por causa das obras de Homero, considera-se a
"invenção do ocidente". Então,
Atenas dominava os estudos clássicos nesse período, essa região impunha o marco
da civilização e da democracia (...). Lembrar que a 1a. edição de
"Ilíada" de Homero foi feita 200 anos depois da guerra de Tróia ter
acontecido.
A
guerra é uma ideia daquele que não é "eu" mas sim, daquele do que
"eu quero ser" (Marcus Mota). Homero serve para construir essa
identidade . Essa relação do ocidente/oriente.
Esse
retorno a Homero existe por causa de uma herança colonial...
Sobre
os deuses: os deuses são muitos estranhos em Homero, possuem raiva, inveja
(...). Os heróis gregos não são tão heróis assim, não são modelos de
comportamento, não são modelos de crença.
Por
exemplo: conhecem o significado de Paidéia[1]?
Paideia significa "Alimentador da casa". Aquele que alimenta.
Segundo
Platão: "Homero é o maior poeta e é
o primeiro dramaturgo da Grécia Antiga".
Homero,
mesmo sendo um poeta da oralidade, construíam uma dramaturgia com as suas
histórias. Sobre essa questão podem ler o livro "Teoria da Composição Oral" de Milman Parry and Albert Lord
Contudo,
devemos lembrar que Homero realizava a sua composição dramatúrgica durante a
sua performance oral.
Em
Homero podemos ver: Cenas típicas, repetições, flutuações, composição oral
tradicional, intervenção do material contado, etc.
Este
formato é destacado nas "Teorias do Ator Rapsodo"[2]. Para entender melhor, eu, Denis Camargo,
coloco o endereço eletrônico do site
da ABRACE - Associação Brasileira de
Artes Cênicas - para leitura de um artigo que explica melhor o conceito.
Entrando
na Ilíada, nesse ciclo "Troiano", Marcus Mota fez a pergunta:
"Por que a recusa da ação é dramática? é um esforço para não agir,
não-ação."
Do canto II ao canto VII teremos 6 dias de lutas pesadas, guerra, trégua....
Se
pensar que Homero é neutro nessa guerra de Tróia é uma falácia, até porque é
ele quem cria essa história, narra,
performa ela para a sua audiência/espectador.
Quando
chegar na parte do escudo de Aquiles, irei expor mais sobre o significado dele.
Lembrem-se
que "Ilíada" de Homero não é um livro sobre documentação histórica e
nem fantasia é uma mediação sobre a existência de Tróia.
Existe
um filme "La Caduta di Troia[4]"
de Giovanni Pastrone, 1991 no youtube.
O
século XX é anti-mímesis: é o período onde os artistas foram buscar suas
referências na negação da tradição e na imaginação (...) hoje o artista faz uma
mediação entre as duas coisas, logo, a mímesis é apropriação transformadora.
Homero
usa movimentos pré-existentes, mas ele estiliza. Assim como Homero teve que se
familiarizar as diversas narrativas de Tróia, vocês, alunos dessa disciplina,
terão que fazer o mesmo no seus projetos durante o semestre.
Sobre
a leitura de "Ilíada" de Homero: existe um obstáculo na leitura que
está relacionada à técnica dos epítetos.
A técnica de repetição está ligada ao performer e à sua recepção. Nessa técnica o autor produz um choque
entre a informação nova com a velha (já mencionada). Esse texto não é linear em
relação ao nosso conceito de tempo, de narrativa. Quando você lê um livro, lembre-se que é ele, o livro, que te lê. Ou
seja, você é lido por ele. Você pode pular
páginas e páginas, mas elas continuam lá, esperando para serem lidas.
O
momento é produção da presença, da atualidade.
Numa
dramaturgia tradicional existem falam e rubricas. Por exemplo, um romance é
cheio de rubrica, narração do autor. Em Homero, existem muitas rubricas do
autor sobre as personagens, as ações, o tempo, etc.
Numa
análise tradicional da narrativa temos que ver: espaços, agentes, ações, etc.
Em
Homero, temos: narrador/performer em interação com sua audiência.
A audiovisualidade
de Homero é escutar e ver, ou seja, a sua audiência ouvia as suas histórias
(som) e via a sua gestualidade (imagem). Escuta e visão são mecanismos
interligados.
As
metáforas ligadas à visão são epistemológicas, são sinônimos de conhecimento,
vem de Parmênides.
Lembrar
que em Homero havia uma imagem visual e uma imagem sonora: fenômeno da
natureza, Zeus se torna presente pela presença do raio e do estrondo, o bater
das lanças no corpo dos soldados, o barulho da espada atravessando o corpo, som
de mar, de epifania...
Mudança
de perspectiva sonora e visual...
Existe
o caráter pivotal da cena: as ideias
vão se transformar em imagens e sons, não se separa som e imagem. Alguém está
contando uma história para alguém que está escutando e vendo o narrador. Tudo é
muito para se ver e ouvir em Homero.
Já
para o leitor de "Ilíada" de Homero é diferente:
1º -
existe uma leitura de "reconhecimento": é aqui que gera estranhamento
- Sobre isso indico o livro: "Lector in fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos"
de Umberto Eco.
2º -
deve-se fazer uma leitura de pesquisa que podem gerar: fontes, referências,
enciclopédia, levantamento de temas de interesse, vai gerar dados, anotar
dúvidas, etc.
3º
Modo de aplicação: como vou aplicar esse material apreendido? Em qual formato
de mídia? (rap, embolada, verso repetitivo, dança, teatro-dança, etc.). Essa
aplicação acontece quando você começa a fazer "homologias". O caminho
da homologia não é igual ao da "analogia". Na homologia existe uma
entre A e B, mas que chega em C. Lembre-se que "metáfora é transpor".
Por
exemplo: agora estamos na linha do tempo, do reconhecimento. A leitura não é um
ato homogêneo, se o leitor quiser ele pode antecipar e fazer dois processos ao
mesmo tempo: reconhecimento e aplicação.
Essa
história possui os eixos: Aquiles/Agamêmnon Pátroclo
Há
várias guerras dentro da guerra, existem as mulheres, existe o heroísmo das
mulheres (em 7 contra Tebas explicita melhor essa relação de poder).
Outra
coisa importante: a questão de gênero é fundamental na obra. Existe a
penetração das espadas (era um ato de penetração, fálico), esse erotismo era
tão forte que chegava a ruborizar os padres da Idade Média.
O
nível do reconhecimento atomiza o leitor, pode fazê-lo se perder no decorrer da
leitura.
Existe
uma discussão na obra que se refere a hierarquia social. Há também uma motivação humana dos atos e
motivação divina dos atos. Alerta: O prof. Marcus Mota falou nesse momento que não
poderemos escrever a palavra "humano" no nosso trabalho final.
Nessa
época não existia uma definição do "humano"/homem, dos deuses ou do
animais/natureza. Todos se comportavam de todas as formas. Em Homem,
encontra-se o primitivo. Contudo, todos têm medo da morte, inclusive os deuses.
-
Existe uma questão sobre a morte: as pessoas vão para a guerra e morrem
rapidamente. O guerreiro era um atleta da morte.
Ler: " O homem diante da morte, 2 volumes
(1977) " de Philippe Aries
Na
Ilíada existem, pelo menos, dois grandes funerais: Pátroclo e Heitor.
"O
mundo como corpo vivo de deus" Eudoro de Souza.
Existe
também a comicidade como silenciado, ela está sempre pairando ali como a morte,
tem o risco. Por que silenciamos a
comicidade? O controle do humor é o
controle do corpo, o controle do riso.
Schopenhauer
já escreveu "no início eu sinto, depois eu penso e, no final, eu rio".
"Se
a morte sempre ronda a vida, encontrar a morte é possível?"
Que
morte é essa? Essa morte é imaginada porque só se pode falar dela se estiver
vivo.
Repetição:
o humor em Homero é ilusivo.
[1]
História[ - Fonte Wikipedia
Inicialmente, a palavra
paideia (de paidos - criança) significava simplesmente
"criação de meninos". Mas, como veremos, este significado inicial da
palavra está muito longe do elevado sentido que mais tarde adquiriu. A ideia
grega de Paideia estava ligada a um ideal de formação educacional, que
procurava desenvolver o homem em todas as suas potencialidades, de tal maneira
que pudesse ser um melhor cidadão.
O termo também
significa a própria cultura construída a partir da educação. Era o ideal que
os gregos cultivavam do mundo, para si e para sua juventude. Uma vez que o
governo próprio era muito valorizado pelos gregos, a Paideia combinava ethos
(hábitos) que o fizessem ser digno e bom tanto como governado quanto como
governante. O objetivo não era ensinar ofícios, mas sim treinar a liberdade e
nobreza. Paideia também pode ser encarada como o legado deixado de uma geração
para outra na sociedade.
Um pedagogo - um escravo, na época -
conduzia o jovem, com sua lanterna iluminadora, até os centros ou assembleias,
onde ocorriam as discussões que envolviam pensamentos críticos, criativos,
resgates de cultura, valorização da experiência dos anciãos etc.
Supõe-se que, no
processo sócio-histórico, esse mesmo pedagogo libertou-se, talvez de tanto
dialogar nos acompanhamentos do jovem até as assembleias, tornando-se um
personagem da paideia, e seu consuma(dor).
Mas, se até então o
objectivo fundamental da educação era a formação aristocrática
do homem individual como Kalos agathos ("Belo e Bom"), a
partir do século V a.C., exige-se algo mais da educação. Para além de formar o
homem, a educação deve ainda formar o cidadão. A antiga educação, baseada na ginástica, na música e na gramática deixa de ser
suficiente.
É então que o ideal
educativo grego aparece como paideia, formação geral que tem por tarefa
construir o homem como homem e como cidadão. Platão define paideia da
seguinte forma "(...) a essência de toda a verdadeira educação ou paideia
é a que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o
ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento" (cit. in
Jaeger, 1995: 147)
Do significado original
da palavra paideia como criação de meninos, o conceito alarga-se para, no
século IV a.C., adquirir a forma cristalizada e definitiva com que foi
consagrado como ideal educativo da Grécia clássica.
Como diz Jaeger (1995),
os gregos deram o nome de paideia a "todas as formas e criações
espirituais e ao tesouro completo da sua tradição, tal como nós o designamos
por Bildung ou pela palavra latina, cultura." Daí que, para
traduzir o termo paideia "não se possa evitar o emprego de expressões
modernas como civilização, tradição, literatura, ou educação; nenhuma delas
coincidindo, porém, com o que os gregos entendiam por paideia. Cada um daqueles
termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito global. Para abranger o
campo total do conceito grego, teríamos de empregá-los todos de uma só
vez." (Jaeger, 1995: 1).
Na sua abrangência, o
conceito de paideia não designa unicamente a técnica própria para, desde cedo,
preparar a criança para a vida adulta. A ampliação do conceito fez com que ele
passasse também a designar o resultado do processo educativo que se prolonga
por toda vida, muito para além dos anos escolares.
A paideia, vem por isso a significar
"cultura entendida no sentido perfectivo que a palavra tem hoje entre nós:
o estado de um espírito plenamente desenvolvido, tendo desabrochado todas as
suas virtualidades, o do homem tornado verdadeiramente homem" (Marrou,
1966: 158).
Nara Keiserman da Universidade
Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO Processos formativos do ator,
teatro narrativo, gestualidade:
http://www.portalabrace.org/vcongresso/textos/processos/Nara%20Keiserman%20-%20Teatro%20gestual%20narrativo.pdf
[3]
Black Athena: The
Afroasiatic Roots of Classical Civilization is a controversial three-volume scholarly work by Martin Bernal. He
discusses ancient Greece
in a new light. Bernal's thesis discusses the perception of ancient Greece in
relation to Greece's African and Asiatic neighbors, especially the ancient Egyptians and Phoenicians who, he
believes, colonized ancient Greece.
Bernal proposes that a
change in the Western perception of Greece took place from the 18th century
onward and that this change fostered a subsequent denial by Western academia of any
significant African and Phoenician influence on ancient Greek civilization.
Although the influence of Egyptian and Near Eastern civilizations
on ancient Greece is not controversial in either ancient or modern Greek historiography, the Afrocentric claims
contained in Black Athena have been described as pseudohistory by Ronald H.
Fritze.[1]
[4] https://www.youtube.com/watch?v=WWOcDs5cvrM
Boas anotações, Denis. Espero que ajudem você e os colegas. abs.
ResponderExcluirO humor é elusivo.