quarta-feira, 26 de março de 2014

ampliando conceitos da aula de introdução a Homero

Na primeira metade da aula, conturbada pelos problemas técnicos, oferecemos uma discussão de contextos da épica homérica.
Vimos que o texto como o recebemos é resultado de um longo processo histórico, que se remete a tradições artísticas orais que recriaram guerras em outros lugares que os de Homero. Ou seja, a Ilíada é a reelaboração dessa longa tradição.
Na segunda parte da aula, procuramos, a partir disso esclarecer nossa situação de leitores.
Primeiro, temos uma relação com o texto escrito, somos leitores. Mas os padrões textuais de A Ilíada reivindicam a compreensão de processos de expressão que apontam para atividades performativas, interação face a face entre o performer e a audiência. Então, de leitores precisamos nos deslocar para agentes dessa interação, nos comportar como platéia em contexto performativo. Depois, compreendendo o jogo performativo, podemos produzir um outro jogo a partir do que compreendermos da poética que está presente na textualidade performativa de A Ilíada. Ou seja, nos tornamos bardos, Homero, autores. Do leitor, para a platéia até o autor - eis o caminho da disciplina.
Para tanto, precisamos entrar em contato com alguns procedimentos básicos da poética homérica, elaborada a partir de padrões tradicionais de composição oral/performativa.
Primeiro, é audiovisualidade: tudo é mostrado por meio de referências sonoras e auditivas. Som e imagem juntas. A espada assassina do soldado brilha e o inimigo morto reverbera seus gemidos.
Segundo, é o caráter pivotal das cenas em Homero. Pivô, um centro, uma base. Todas as cenas se articulam como duplicações da relação entre performer e audiência. Traduzindo: o narrador não se dirige na maioria das vezes diretamente para seu público. Não precisa: o que ele coloca em cena já se articula em perspectivas desdobradas e complementares. Em cena temos uma luta em dois soldados;que é mostrada pelo performer para a audiência. A guerra acontece na planície de Tróia observada pela corte de Tróia. O performer conta isso para audiência. Os deuses observam a guerra do alto, enquanto o performer mostra isso para a audiência. Assim, as cenas se organizam dentro de restrições observacionais como as da interação entre performer e audiência.

Depois, elencamos alguns temas para possíveis desdobramentos
1- questões de gênero: a outra guerra, a guerra das mulheres . O caráter sexual dos embates entre os soldados. O questionamento do masculino na guerra.
2- a morte que organiza os eventos em cena.
3- a comicidade elusiva, como a morte. Onde há a morte, há o humor. trata-se de uma questão fenomenológica: como mostrar algo que não se mostra além de seus efeitos? 

Um comentário:

  1. Contribuição inicial para aula:
    Aquiles era filho de uma deusa, Tétis, com um mortal. Ao nascer, sua mãe, prevendo o futuro do filho, lançou-o às águas do mar Estige, que o tornaria imortal, segurando-o apenas pelo calcanhar, onde, veremos, ficou vulnerável. Já adulto, foi-lhe revelado que deveria escolher participar da guerra e morrer ou não ir à Troia e ter uma vida tranquila e longa. Sua aspiração era a de que seu nome como guerreiro ecoasse pela eternidade, mesmo que sua vida, dessa forma, fosse curta.
    Aquiles também reunia em si as características do herói, como força, habilidade, velocidade. Em batalha era imbatível. Representava para os argivos (os soldados Aqueus) uma inspiração no campo de batalha.
    Decidido a ir para a batalha, Aquiles juntou-se ao cerco de Troia. Ele tinha como discípulo o guerreiro Pátroclo, que combateu ao seu lado na guerra. No pano de fundo da guerra, os deuses favoreciam ora os gregos, ora os troianos. Vários nomes são destaque na batalha: Nestor, Odisseu, Ajax, Heitor.
    O comandante Agamemnon capturou a bela Criseida, filha de Crisis e Pitonisa, do templo de Apolo. Aquiles se rebelou com essa prisão, pois estava encantado pela virgem. Com isso, decidiu se afastar da guerra, gerando milhares de baixas aos Aqueus. Afastado, ele permitiu que Pátroclo usasse sua armadura. No campo de batalha, o grande Heitor, príncipe de Troia, enfrentou-o e matou-o, acreditando se tratar de Aquiles. Sabendo disso, Aquiles procurou Heitor para um duelo no qual derrota a grande esperança dos troianos. O sábio rei Príamo lhe reclamou o corpo para os funerais num gesto bastante corajoso. Mas, ainda desmotivado pelo episódio de Criseida, Aquiles não voltou à batalha. Assim, os gregos sofreram revezes, já que não conseguiam penetrar na fortaleza de Troia em razão dos seus altos muros.
    A batalha já durava 10 anos e, querendo voltar para casa, os soldados, já desanimados, sentiam o estigma da derrota. Até que o astuto Odisseu teve uma brilhante ideia: além de persuadir Aquiles a voltar para a batalha, ele propôs usar a madeira das naus para construir um cavalo gigantesco que seria oferecido aos troianos como presente dos deuses após a guerra. O Cavalo de Troia, que os troianos levaram para dentro de sua cidade, guardava no seu interior um batalhão de argivos que invadiram a cidade e abriram os portões para que a tropa grega pudesse adentrar e, com isso, derrotar os inimigos.
    Nesse episódio final, os aqueus massacraram os troianos, incendiando a cidade, enquanto Menelau procurava incansavelmente por Helena, que fugira. Páris foi ferido e morto. Aquiles foi atingido no calcanhar direito (o vulnerável calcanhar de Aquiles) por uma flecha desferida por Filolectes e, assim, cumpriu o destino que os deuses lhe reservaram. Troia foi destruída, Agamemnon apossou-se da terra e, depois de muito tempo de procura, Menelau encontrou Helena, que, já tendo se casado uma outra vez, voltou para Esparta. Assim, os soldados puderam, depois da pilhagem, voltar a seus reinos.
    É assim que entendemos a moral do mito: Helena (do grego ELLAS = Grécia) parece justamente contar a história do surgimento e da formação do povo grego. E a imagem que se quer transmitir é a do belo e do bom guerreiro, tal como Aquiles, que preferiu morrer e ser lembrado para sempre por causa de seus feitos, a viver uma vida longa e medíocre na paz dos campos de pastoreio.

    Por João Francisco P. Cabral
    Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
    Mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

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