Reizada Amor.
Entram pela platéia com sanfona, viola. Como em uma folia de Reis,
lembrando uma festa com muita alegria.
Reizada.
“ Abre a Porta ò maninha
Que a folia já vem
Chame o povo
É hora de cantar
A Reizada desse ano
Tá bonita pra danar.
Pegue a Bandeira ó maninha
Traz o palhaço pra roda
Faz um grude
O povo quer comer
A Reizada desse ano
Vai cantar até romper
Vai romper na aurora
com muita cantoria
Traz mais grude
É dia de folia
A Reizada desse ano
Vai trazer muita alegria
Alegria para mim
Alegria pro cê
Pro Vovô, pra vovó e pra Titia
A reizada desse ano
É louvada desse dia”.
Narradora:
Boa noite! Eu, Homera
Lorota, sou uma contadora de História, descendente
legítima de Homero, o maior contador de História, do mundo. Hoje contarei uma
história que chamada Reizada de amor. É
uma história que aconteceu, ou poderia ter acontecido no interior de Minas
Gerais. Eu a recebi de fontes
fidedignas, íntimas, secretas,
familiares. São “Memórias inventadas”, como diria Manoel de
Barros.
(coloca a sanfona no chão).
Como em uma Folia de
Reis, essa festa começa com muita alegria, louvando o nascimento do Amor. Há
floreados, sim: há cantos e contracantos, comentários e palavreados, produtos
da imaginação, ficções que podem vir à mente na hora de contar, isso necessário
para dar colorido e vida à história. “Quem conta um conto aumenta um ponto”,
mas qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.
É! quanto ao essencial,
vocês podem crer sem nenhum receio de serem ludibriados: é tudo verdade, quase
verdadeira.
(senta no banquinho com a cabeça para baixo indicando um movimento de inspiração).
Era uma vez, uma donzela de lindo
rosto moreno, pés pequenos e tranças de negro tom, chamada Maria Rita Silva de Santo
Antônio. Carregava Santo Antônio no nome, porque nasceu no dia do Santo casamenteiro,
mas era mas conhecida como Maroca. Maroca era a filha mais nova dentre os 10
filhos de Pé Justo, como era carinhosamente chamado o Sr Justiniano Henriques
da Silva, e de Dona Maria Delfina, mulher simples e muito dedicada a família.Reza a lenda, que Maroca, a donzela,
apaixonou-se perdidamente por um jovem domador de cavalos chamado Heitor
Silvério do Carmo.
Heitor, jovem de espírito guerreiro
e audaz, deixou sua cidade natal, Santa Luzia e se embrenhou pelo sertão como
um desbravador, para trabalhar em uma região próspera de Minas de ouro, (apontando o deodo e olhando para plateia)
ali, ali ali, ali ó no interior de Minas Gerais onde morava Maroca, a donzela. Em
sua cidade de origem, o audacioso Heitor era tido com uma figura quase lendária
pela bravura com que enfrentava seus inimigos (coisa comum na época). Mas
especialmente ficou famoso pela perspicácia e inteligência com que dominava
cavalos, vacas selvagens. Ao chegar, dedicou-se a profissão de vaqueiro e domador
de animais nas fazendas da região.Tenaz em combate, Heitor, também tratou logo
de atiçar os corações da moças casadoiras.
Maroca, de lindo rosto moreno, não
era propriamente a mais divina das donzelas, mas despertava respirações profundas
nos jovens camponeses. Menos em Heitor. O guerreiro, ainda não a havia notado e
isso intrigava profundamente Maroca.
Certo dia, a donzela Maroca, a pedido de seu pai Pé
Justo foi buscar uma ninhada de ovos e um galão de leite na fazenda do Cumpadre
vizinho. Esse tipo de cortesia era comum entre os colonos. O vizinho, Sr. José Gabão Pereira, mas
conhecido com Sr Juca Mandú era um fazendeiro farturento e muito respeitado na
região. Foi casado com Rita Francelina Leite, com quem teve 13 filhos. Ficando
viúvo, casou-se com Rosa Cortes, irmã da primeira com quem teve outros 17
filhos. Alguns desses filhos morreram em criança, mas a maioria chegou a idade
adulta.
Bom.... voltando, Maroca, a donzela,
seguia destraída à pé pelo grande pasto da propriedade do Sr Juca Mandú quanto deu
de cara com uma vaca estourada.
À parte - Para
quem não sabe, vaca estourada, é quando uma vaca ainda selvagem fugia desembestado
do curral passando por cima de tudo. Encontrar com um vaca estourada, era uma
das situações de extremo perigo.
Maroca, com olhos ainda maiores de jabuticaba, ficou
desesperada de medo. A Donzela estava em perigo, sozinha em meio a um
descampado, sem nenhuma árvore ou cerca para se salvar, lançou um grito medonho
e tratou logo de garrá na reza forte.
“Pai nosso que está no céu...”
O animal bufando se aproximava.
“Ave Maria cheia de graça...””
A vaca tinha ira no olhos
“Creio em Deus pai todo poderoso...’
O
estouro tremia o chão.
Mas eis que de repente, Maroca
escuta o trotear de uma animal em alta velocidade, sente seu corpo sendo laçado
por um forte braço e depois lançado para o dorso de um cavalo branco.
Tudo parou, enquanto a vaca estourada ainda corria atrás
do cavalo. Maroca só ouvia os pássaros cantando, o trotear do cavalo, sentia a
respiração quente e ofegante do animal, o vento, o sol, o cheiro de pasto, de
estrume de vaca e o calor do corpo de seu herói. Era Heitor, forte dominador de
debandadas, ele que já antes combatera um exército
de cavalos, vacas selvagens e onças famintas,
ele que já antes combatera semelhante a uma tempestade, o fez, capturando
Maroca com um gesto de cima para baixo chicoteando o cavalo e levantando um
grande grito de clamor e depois conduzindo-os para a sombra segura de uma
mangueira frondosa.
(Música Romaria cantada e tocada na viola e sanfona.) ( brincando os os
bonequinhos)
Romaria.
Renato Teixeira
“É de sonho e de pó
O Destino de um só
Feito eu perdido
Em pensamentos
Sobre o meu Cavalo.
É de laço e de nó
De jibeira e jiló
Dessa vida
Cumprida a só
Sou Caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina o mina escura e funda
O trem da minha vida.”( 2x)
Romaria:
( A música continua baixinha e instrumental)
Os dois desceram do cavalo, se olharam e tal como quando um homem forte
com o afiado machado golpeia atrás dos chifres de um boi do curral e corta os
tendões completamente e o boi cai para trás, assim: fatal, foi o amor de Maroca
por Heitor e o de Heitor por Maroca.
Maroca ao som da viola tocando Romaria diz para Heitor:
Simplesmente Amor.
( Maria Tereza Guimarães Abreu – minha Tia avó)
É tão sincero puro e inocente
O amor que sinto por você!
Ele nasceu assim, como a plantinha
Que cresce, sem agente ver porquê.
Ë tão sincero, puro e inocente
Existe sem motivo, sem porquê.
Igual a flor que se abre ao
amanhecer
E o amor que sinto por você.
E tão sincero, puro e inocente
Outro igual no mundo não se vê.
Como
o canto feliz das avezinhas
É o amor que sinto por você.
Ë tão sincero puro e inocente
O meu amor, tão lindo, assim, porquê
Quando Deus criou o universo
Fez o amor que sinto por você!
Termina em êxtase, gemidos e gritos de amor. Ao som tranquilo da viola
que ao final da poesia puxa para a levada de catira e Maroca já comemora com uma
catira traçada um duelo com o violeiro.
No dia seguinte começava a Folia
Reis com direito a catira e brincadeira no final. Era início de ano, quando o povo
religioso louvava o nascimento do Amor na figura do Menino Deus reviviam a
visita dos três Reis do Oriente.
Almoçando ali, jantando acolá,
comendo um queijinho aqui, uma cachacinha mais adiante os foliões iam pelas fazendas
angariando donativos para a reza do terço. Dessa vez, a fazenda do Sr. Pé
Justo, pai de Maroca, seria a Casa do Festeiro.
Não sei se foi acaso do destino ou
se foi o Santo Antônio, o adevogado casamenteiro deu uma mãozinha, mas para a
supresa de Maroca Heitor estava entre os
foliões como ajudante do Capitão, substituindo o Sr. Zostres violeiro antigo da
região, que já era de idade, coitado, e não tinha mais saúde para seguir com a
folia. No interior, as notícias correm rápido e logo ficaram sabendo que Heitor, o domador de cavalos, também era um
exímio violeiro.
... Ai então fez-se a festa,
sobretudo para Maroca e Heitor. Primeiro com a reza do terço, na sala principal
da casa, ante um altar. A saudação da
lapinha foi com os dois flertando. O terço que geralmente era lento e monótono,
pois a rezadeira era vagarosa e pronunciava com minúcia cada palavra. Para
Maroca e Heitor a reza foi aquecida pelo namorico tal qual uma fogueira de São
João aquece o inverno e o lume corre em leiras, os ramos estalam, o fogo cresce
e a fumaça sobe para o céu.
Para acomodar os tantos convivas, se
prevenindo de um possível tarde chuvosa, Sr. Juca Mandú armou a tolda coberta com
folhas de coqueiro. Ali foi posta a grande mesa de tábuas sobre cavaletes de
sustentação, coberta por toalhas brancas, onde foi servida a comidaria, jantar,
mesa de doces e quitandas a que todos os convidados tinham direito. Depois
desmancharam a mesa e começou o arrasta pé que foi até o amanhecer do dia
seguinte.
Já na hora da brincadeira, os enamorados depois de vivido a Folia de
Reis, se afastaram discretamente do festejo para prozear na varanda, entre
risos tímidos e corações palpitantes.
(Pegando a sanfona e subindo
no banquinho fala)
Heitor, dedilhou uma amorosa canção
à viola de límpido som para Maroca;
enquanto os outros, na casa, com sintonizado estampido seguiam na dança da
catira com uivos e gaitadas de alegria.
Heitor canta para Maroca a música:
Moreninha se eu te pedisse.
( domínio público)
“Moreninha se eu te pedisse, de modo
que ninguém visse
De modo que ninguém visse, um beijo
tú me negavas
Moreninha se eu te pedisse, de modo
que ninguém visse
Um beijo tú me negavas ou dava, ou
davas.
Moreniha, seu eu te encontrasse, na
varanda costurando
Na varanda costurando e me recebesse
sorrindo
Moreninha se eu te encontrasse na
varanda costurando
E me recebesse sorrindo, que lindo,
que lindo.
Beijava teus pés pequenos, teu lindo
rosto moreno
Teu lindo rosto moreno e as tranças
negro tom
Beijava teus pés pequenos teu lindo rosto moreno
E as tranças do negro tom que bom
que bom.
Moreninha, seu visse o mundo da
janela dos teus olhos
Da janela dos teus olhos, o mundo seria um doce
Moreninha se eu viesse o mundo da
janela dos teus olhos
O mundo seria um doce, se fosse, se
fosse.”
E os dias seguiram.... entre
suspiros, namoros escondidos, sonhos, juras de amor eterno, serenatas, rosas,
bilhetinhos e canções na viola. Heitor, o destemido, era como um Deus Grego: perfeito. Encantava Maroca em tudo. Com a beleza rude, a música doce, o cheiro
suado de trabalhador e com as palavras de coragem, valentia que a miúde soltava.
Queria desbravar o mundo com Maroca, ambicioso e destemido, não temia nada nem
mesmo a morte.
Certa
Noite, Heitor, em serviço galopando pelo sertão, ouviu notícias de uma Mina de
ouro ainda não explorada na região do Alto Paranaíba. Aproveitou um noite
escura e fria marcar território e se apossar da Mina. Isso não era um serviço
fácil
Mal sabia
Heitor que há tempos, uma família de anões, que viviam no povoado de Zalagoas/MG,
haviam dominado algumas Minas de ouro na Região do Alto Paranaíba sem muito
alarde. Isso é verdade, eu não acredito
em Papai Noel, Coelinho da Páscoa,Princesa encantada, mas em anão eu acredito, porque
eu já vi.
Diziam o
povo, que apesar de pequenos, os anões eram velozes como lobos, traiçoeiros,
zombeteiros como raposas, eram incansáveis na exploração das Minas e tinham grandes
habilidades de penetrar nas grutas devido a baixa estatura que eram dotados. No
escuro se escondiam facilmente entre as pedras e moitas e ao perceber Heitor
entrando destemido na Mina ainda virgem, um desses sorrateiros seres pequenos
estava escondido deträs de um pedra mais alta. E como uma
águia de voo sublime, que através das nuvens escuras se lança em direção à
planície para arrebatar um bezerro ou pequeno
veadinho, assim o anão, com o coração cheio de ira selvagem, foi em
direção ao pobre Heitor.
E
como a Lua que surge entre as outras estrelas no negrume da noite, assim
reluziu a ponta da faca, que o Anão apontou para o divino Heitor.
Primeiro
olhou para a bela carne, para ver onde melhor seria penetrada. Ora todo o corpo
de Heitor estava revestido por uma capa de vaqueiro de couro. Mas aparecia, o
local onde os ombros se separa da cabeça, a garganta, onde rapidíssimo é o fim
da vida.
Foi aí que o furioso anão trespassou completamente o pescoço macio de
Heitor.
(cai no chão do banco coma mão na garganta).
Mas
a faca pesada não cortou a traqueia, para que Heitor ainda pudesse proferir as
últimas alada palavras:
“Agora a morte está perto de mim,
não há como fugir”.
( Cai e more)
‘ Era isto que
Jesus Cristo, o
filho de Deus tecia como meu destino”.
( Cai e more)
‘ Que eu não morra de forma
inglória, mas por ter feito algo de grandioso aos olhos Maroca e que eu não seja
esquecido no tempo.”
(Morte final, Vai levantando
do chão enquanto Entra viola forte tocando
- 'Nós cantemos' - O grito de Maroca faz a segunda voz característica da
Música de Folia de Reis, com movimentos de arrancar o cabelo).
Gemeu agoniada a donzela e o povo à volta estava preso pela lamentação.
A parecença era como se toda a cidade, ardesse com fogo de cima a baixo. Maroca
não via mais cor no mundo, só queria adorar Jesus Cristo, casar com Deus. Para
ela, era como se Heitor, ao morrer, tivesse, ao céu, fundido-se ao Santo Homem
que morreu na Cruz para salvar o Mundo. Vivia da esperança de reever Heirtor no
Paraíso junto de Deus. Ficou louca de amor reprimido, louca de amor inacabado.
Mas calma lá, meu povo, essa história apesar de triste, foi contada pra
trazer alegria, o prazer do encontro, da festa que é contar uma história. Assim,
nós, simples mortais, conseguimos perdurar nossa existência, mesmo depois da
morte.
Aqui é o fim. Mas como a Folia de Reis, e tantas outras festas que há
pelo mundo não acaba. Eu, Homera Lorota, me despeço agora, porque vou encontrar
outro povo para reviver essa mesma História de amor, e irei contar, recontar e
contar mais outras vezes, sempre contando…..
Retirada –
(Domínio
Público - Música de Folia de Reis)
Adeus adeus eu já vou embora
Fica com Deus e Nossa Senhora ( 2x)
Adeus, Adeus, não chores não
Para o ano eu voltarei
Para cumprir nova missão ( 2x)
A retirada
A retirada
Eh! Meu camarada
A retirada
Ja vou embora
Já ou embora
Eh! Meu camarada
Vê se não demora!
Adorei!
ResponderExcluirMuito bacana, Caísa! As mudanças que vc fez ficaram ótimas!
ResponderExcluir"A vaca tinha ira nos olhos"
ResponderExcluirGostei muito, se você puder veja o documentário que Marcus sugeriu "Terra deu, Terra come". Eu já conhecia, tem o contador Pedro Alexia ele é fenomenal. É um documentário, mas muito criativo na montagem. Teatro puro. Como é rico o nosso povo!
Bjs