segunda-feira, 26 de maio de 2014

Roteiro - Reizada de Amor.

Colegas, estou postanto o meu roteiro, que está sempre mudando, mas essa é a última versão por favor, quem puder ler. Se houver espaço, pretendo falar sobre o meu processo no próximo encontro. 
Coloquei  acesso secreto para o meu blog, só quem está como colaborador pode acessar, pois postei algumas entrevistas, enfim vou convidar novamente.

Reizada Amor.


Entram pela platéia com sanfona, viola. Como em uma folia de Reis, lembrando uma festa com muita alegria.

Reizada.

“ Abre a Porta ò maninha
Que a folia já vem
Chame o povo
É hora de cantar
A Reizada desse ano
Tá bonita pra danar.

Pegue a Bandeira ó maninha
Traz o palhaço pra roda
Faz um grude
O povo quer comer
A Reizada desse ano
Vai cantar até romper

Vai romper na aurora
com muita cantoria
Traz mais grude
É dia de folia
A Reizada desse ano
Vai trazer muita alegria

Alegria para mim
Alegria pro cê
Pro Vovô, pra vovó e pra Titia
A reizada desse ano
É louvada desse dia”.

Narradora:

Boa noite! Eu, Homera Lorota, sou uma contadora de História,   descendente legítima de Homero, o maior contador de História, do mundo. Hoje contarei uma história que chamada Reizada de amor. É uma história que aconteceu, ou poderia ter acontecido no interior de Minas Gerais. Eu a recebi de fontes fidedignas,  íntimas, secretas, familiares. São “Memórias inventadas”, como diria Manoel de Barros.
(coloca a sanfona no chão).
Como em uma Folia de Reis, essa festa começa com muita alegria, louvando o nascimento do Amor. Há floreados, sim: há cantos e contracantos, comentários e palavreados, produtos da imaginação, ficções que podem vir à mente na hora de contar, isso necessário para dar colorido e vida à história. “Quem conta um conto aumenta um ponto”, mas qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É! quanto ao essencial, vocês podem crer sem nenhum receio de serem ludibriados: é tudo verdade, quase verdadeira.
(senta no banquinho com a cabeça para baixo indicando um movimento de  inspiração).

Era uma vez, uma donzela de lindo rosto moreno, pés pequenos e tranças de negro tom, chamada Maria Rita Silva de Santo Antônio. Carregava Santo Antônio no nome, porque nasceu no dia do Santo casamenteiro, mas era mas conhecida como Maroca. Maroca era a filha mais nova dentre os 10 filhos de Pé Justo, como era carinhosamente chamado o Sr Justiniano Henriques da Silva, e de Dona Maria Delfina, mulher simples e muito dedicada a família.Reza a lenda, que Maroca, a donzela, apaixonou-se perdidamente por um jovem domador de cavalos chamado Heitor Silvério do Carmo.

Heitor, jovem de espírito guerreiro e audaz, deixou sua cidade natal, Santa Luzia e se embrenhou pelo sertão como um desbravador, para trabalhar em uma região próspera de Minas de ouro, (apontando o deodo e olhando para plateia) ali, ali ali, ali ó no interior de Minas Gerais onde morava Maroca, a donzela. Em sua cidade de origem, o audacioso Heitor era tido com uma figura quase lendária pela bravura com que enfrentava seus inimigos (coisa comum na época). Mas especialmente ficou famoso pela perspicácia e inteligência com que dominava cavalos, vacas selvagens. Ao chegar, dedicou-se a profissão de vaqueiro e domador de animais nas fazendas da região.Tenaz em combate, Heitor, também tratou logo de atiçar os corações da moças casadoiras.

Maroca, de lindo rosto moreno, não era propriamente a mais divina das donzelas, mas despertava respirações profundas nos jovens camponeses. Menos em Heitor. O guerreiro, ainda não a havia notado e isso intrigava profundamente Maroca.

Certo dia,  a donzela Maroca, a pedido de seu pai Pé Justo foi buscar uma ninhada de ovos e um galão de leite na fazenda do Cumpadre vizinho. Esse tipo de cortesia era comum entre os colonos.  O vizinho, Sr. José Gabão Pereira, mas conhecido com Sr Juca Mandú era um fazendeiro farturento e muito respeitado na região. Foi casado com Rita Francelina Leite, com quem teve 13 filhos. Ficando viúvo, casou-se com Rosa Cortes, irmã da primeira com quem teve outros 17 filhos. Alguns desses filhos morreram em criança, mas a maioria chegou a idade adulta.

Bom.... voltando, Maroca, a donzela, seguia destraída à pé pelo grande pasto da propriedade do Sr Juca Mandú quanto deu de cara com uma vaca estourada.
À parte - Para quem não sabe, vaca estourada, é quando uma vaca ainda selvagem fugia desembestado do curral passando por cima de tudo. Encontrar com um vaca estourada, era uma das situações de extremo perigo.

Maroca,  com olhos ainda maiores de jabuticaba, ficou desesperada de medo. A Donzela estava em perigo, sozinha em meio a um descampado, sem nenhuma árvore ou cerca para se salvar, lançou um grito medonho e tratou logo de garrá na reza forte.
“Pai nosso que está no céu...”
O animal bufando se aproximava.
“Ave Maria cheia de graça...””
 A vaca tinha ira no olhos
“Creio em Deus pai todo poderoso...’
O estouro tremia o chão.

Mas eis que de repente, Maroca escuta o trotear de uma animal em alta velocidade, sente seu corpo sendo laçado por um forte braço e depois lançado para o dorso de um cavalo branco.
Tudo parou,  enquanto a vaca estourada ainda corria atrás do cavalo. Maroca só ouvia os pássaros cantando, o trotear do cavalo, sentia a respiração quente e ofegante do animal, o vento, o sol, o cheiro de pasto, de estrume de vaca e o calor do corpo de seu herói. Era Heitor, forte dominador de debandadas, ele que já antes combatera um exército
 de cavalos, vacas selvagens e onças famintas, ele que já antes combatera semelhante a uma tempestade, o fez, capturando Maroca com um gesto de cima para baixo chicoteando o cavalo e levantando um grande grito de clamor e depois conduzindo-os para a sombra segura de uma mangueira frondosa.

(Música  Romaria cantada e  tocada na viola e sanfona.) ( brincando os os bonequinhos)

Romaria.
Renato Teixeira

“É de sonho e de pó
O Destino de um só
Feito eu perdido
Em pensamentos
Sobre o meu Cavalo.

É de laço e de nó
De jibeira e jiló
Dessa vida
Cumprida a só

Sou Caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina o mina escura e funda
O trem da minha vida.”( 2x)

Romaria:


( A música continua baixinha e instrumental)

Os dois desceram do cavalo, se olharam e tal como quando um homem forte com o afiado machado golpeia atrás dos chifres de um boi do curral e corta os tendões completamente e o boi cai para trás, assim: fatal, foi o amor de Maroca por Heitor e o de Heitor por Maroca.

Maroca ao som da viola tocando Romaria diz para Heitor:

Simplesmente Amor.
( Maria Tereza Guimarães Abreu – minha Tia avó)

É tão sincero puro e inocente
O amor que sinto por você!
Ele nasceu assim, como a plantinha
Que cresce, sem agente ver porquê.

Ë tão sincero, puro e inocente
Existe sem motivo, sem porquê.
Igual a flor que se abre ao amanhecer
E o amor que sinto por você.

E tão sincero, puro e inocente
Outro igual no mundo não se vê.
Como  o canto feliz das avezinhas
É o amor que sinto por você.

Ë tão sincero puro e inocente
O meu amor, tão lindo, assim, porquê
Quando Deus criou o universo
Fez o amor que sinto por você!

Termina em êxtase, gemidos e gritos de amor. Ao som tranquilo da viola que ao final da poesia puxa para a levada de catira e Maroca já comemora com uma catira traçada  um duelo com o violeiro.

No dia seguinte começava a Folia Reis com direito a catira e brincadeira no final. Era início de ano, quando o povo religioso louvava o nascimento do Amor na figura do Menino Deus reviviam a visita dos três Reis do Oriente.

Almoçando ali, jantando acolá, comendo um queijinho aqui, uma cachacinha mais adiante os foliões iam pelas fazendas angariando donativos para a reza do terço. Dessa vez, a fazenda do Sr. Pé Justo, pai de Maroca, seria a Casa do Festeiro.

Não sei se foi acaso do destino ou se foi o Santo Antônio, o adevogado casamenteiro deu uma mãozinha, mas para a supresa de Maroca Heitor  estava entre os foliões como ajudante do Capitão, substituindo o Sr. Zostres violeiro antigo da região, que já era de idade, coitado, e não tinha mais saúde para seguir com a folia. No interior, as notícias correm rápido e logo ficaram sabendo que  Heitor, o domador de cavalos, também era um exímio violeiro.

... Ai então fez-se a festa, sobretudo para Maroca e Heitor. Primeiro com a reza do terço, na sala principal da casa, ante um altar. A  saudação da lapinha foi com os dois flertando. O terço que geralmente era lento e monótono, pois a rezadeira era vagarosa e pronunciava com minúcia cada palavra. Para Maroca e Heitor a reza foi aquecida pelo namorico tal qual uma fogueira de São João aquece o inverno e o lume corre em leiras, os ramos estalam, o fogo cresce e a fumaça sobe para o céu.

Para acomodar os tantos convivas, se prevenindo de um possível tarde chuvosa, Sr. Juca Mandú armou a tolda coberta com folhas de coqueiro. Ali foi posta a grande mesa de tábuas sobre cavaletes de sustentação, coberta por toalhas brancas, onde foi servida a comidaria, jantar, mesa de doces e quitandas a que todos os convidados tinham direito. Depois desmancharam a mesa e começou o arrasta pé que foi até o amanhecer do dia seguinte.

Já na hora da brincadeira, os enamorados depois de vivido a Folia de Reis, se afastaram discretamente do festejo para prozear na varanda, entre risos tímidos e corações palpitantes.
(Pegando a sanfona e subindo no banquinho fala)
Heitor, dedilhou uma amorosa canção
à viola de límpido som para Maroca; enquanto os outros, na casa, com sintonizado estampido seguiam na dança da catira com uivos e gaitadas de alegria.
Heitor canta para Maroca a música:


Moreninha se eu te pedisse.
( domínio público)

“Moreninha se eu te pedisse, de modo que ninguém visse
De modo que ninguém visse, um beijo tú me negavas
Moreninha se eu te pedisse, de modo que ninguém visse
Um beijo tú me negavas ou dava, ou davas.

Moreniha, seu eu te encontrasse, na varanda costurando
Na varanda costurando e me recebesse sorrindo
Moreninha se eu te encontrasse na varanda costurando
E me recebesse sorrindo, que lindo, que lindo.

Beijava teus pés pequenos, teu lindo rosto moreno
Teu lindo rosto moreno e as tranças negro tom
Beijava teus pés pequenos  teu lindo rosto moreno
E as tranças do negro tom que bom que bom.

Moreninha, seu visse o mundo da janela dos teus olhos
Da janela dos teus olhos,  o mundo seria um doce
Moreninha se eu viesse o mundo da janela dos teus olhos
O mundo seria um doce, se fosse, se fosse.”

E os dias seguiram.... entre suspiros, namoros escondidos, sonhos, juras de amor eterno, serenatas, rosas, bilhetinhos e canções na viola. Heitor, o destemido, era como um Deus Grego: perfeito. Encantava Maroca em tudo. Com a beleza rude, a música doce, o cheiro suado de trabalhador e com as palavras de coragem, valentia que a miúde soltava. Queria desbravar o mundo com Maroca, ambicioso e destemido, não temia nada nem mesmo a morte.

Certa Noite, Heitor, em serviço galopando pelo sertão, ouviu notícias de uma Mina de ouro ainda não explorada na região do Alto Paranaíba. Aproveitou um noite escura e fria marcar território e se apossar da Mina. Isso não era um serviço fácil
Mal sabia Heitor que há tempos, uma família de anões, que viviam no povoado de Zalagoas/MG, haviam dominado algumas Minas de ouro na Região do Alto Paranaíba sem muito alarde.  Isso é verdade, eu não acredito em Papai Noel, Coelinho da Páscoa,Princesa encantada, mas em anão eu acredito, porque eu já vi.
Diziam o povo, que apesar de pequenos, os anões eram velozes como lobos, traiçoeiros, zombeteiros como raposas, eram incansáveis na exploração das Minas e tinham grandes habilidades de penetrar nas grutas devido a baixa estatura que eram dotados. No escuro se escondiam facilmente entre as pedras e moitas e ao perceber Heitor entrando destemido na Mina ainda virgem, um desses sorrateiros seres pequenos estava escondido deträs de um pedra mais alta. E como uma águia de voo sublime, que através das nuvens escuras se lança em direção à planície para arrebatar um bezerro ou pequeno veadinho, assim o anão, com o coração cheio de ira selvagem, foi em direção  ao pobre Heitor.

E como a Lua que surge entre as outras estrelas no negrume da noite, assim reluziu a ponta da faca, que o Anão apontou para o divino Heitor.
Primeiro olhou para a bela carne, para ver onde melhor seria penetrada. Ora todo o corpo de Heitor estava revestido por uma capa de vaqueiro de couro. Mas aparecia, o local onde os ombros se separa da cabeça, a garganta, onde rapidíssimo é o fim da vida.
Foi aí que o furioso anão trespassou completamente o pescoço macio de Heitor.

(cai no chão do banco coma mão na garganta).

Mas a faca pesada não cortou a traqueia, para que Heitor ainda pudesse proferir as últimas alada palavras:

“Agora  a morte está perto de mim, não há como fugir”.
( Cai e more)
 ‘ Era isto que
Jesus Cristo, o filho de Deus tecia como meu destino”.
( Cai e more)
 ‘ Que eu não morra de forma inglória, mas por ter feito algo de grandioso aos olhos Maroca e que eu não seja esquecido no tempo.”
(Morte final, Vai levantando do chão enquanto Entra viola forte tocando  - 'Nós cantemos' - O grito de Maroca faz a segunda voz característica da Música de Folia de Reis, com movimentos de arrancar o cabelo).
Gemeu agoniada a donzela e o povo à volta estava preso pela lamentação. A parecença era como se toda a cidade, ardesse com fogo de cima a baixo. Maroca não via mais cor no mundo, só queria adorar Jesus Cristo, casar com Deus. Para ela, era como se Heitor, ao morrer, tivesse, ao céu, fundido-se ao Santo Homem que morreu na Cruz para salvar o Mundo. Vivia da esperança de reever Heirtor no Paraíso junto de Deus. Ficou louca de amor reprimido, louca de amor inacabado.
Mas calma lá, meu povo, essa história apesar de triste, foi contada pra trazer alegria, o prazer do encontro, da festa que é contar uma história. Assim, nós, simples mortais, conseguimos perdurar nossa existência, mesmo depois da morte.
Aqui é o fim. Mas como a Folia de Reis, e tantas outras festas que há pelo mundo não acaba. Eu, Homera Lorota, me despeço agora, porque vou encontrar outro povo para reviver essa mesma História de amor, e irei contar, recontar e contar mais outras vezes, sempre contando…..
Retirada
 (Domínio Público - Música de Folia de Reis)
Adeus adeus eu já vou embora
Fica com Deus e Nossa Senhora ( 2x)

Adeus, Adeus, não chores não
Para o ano eu voltarei
Para cumprir nova missão ( 2x)

A retirada
A retirada
Eh! Meu camarada
A retirada

Ja vou embora
Já ou embora
Eh! Meu camarada
Vê se não demora!




3 comentários:

  1. Muito bacana, Caísa! As mudanças que vc fez ficaram ótimas!

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  2. "A vaca tinha ira nos olhos"
    Gostei muito, se você puder veja o documentário que Marcus sugeriu "Terra deu, Terra come". Eu já conhecia, tem o contador Pedro Alexia ele é fenomenal. É um documentário, mas muito criativo na montagem. Teatro puro. Como é rico o nosso povo!
    Bjs

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